Perfil do Jovem Pós-moderno

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Data: 
03/02/12

A juventude pós-moderna surge fragmentada. Já não se define como agrupamento único. Divide-se em constelações que se desintegram em grupos e individualidades, cada uma com uma síntese, com inquietações e buscas próprias.

 

A juventude reflete, em suas atitudes e gestos, as características de uma nova cultura a que chamamos pós-modernidade. Para caracterizar a sociedade e o indivíduo pós-moderno, não há traços mais peculiares que o individualismo, o hedonismo e o consumismo. As três características são o epicentro do pós-modernismo, sendo, porém, o neonarcisismo o elemento que perpassa e impulsiona todos eles.

 

O neonarcisismo designa o surgimento do indivíduo obcecado pela própria imagem, preocupado somente consigo mesmo. Há um sentimento de vazio interior e de absurdo da vida, uma incapacidade de sentir as coisas e os seres. Quanto mais a sociedade se humaniza, mais o sentimento de anonimato se estende, quanto mais cresce o bem-estar, mais a depressão e o vazio triunfam no mundo pós-moderno. A juventude de hoje vive no presente, apenas no presente e não já em função do passado e do futuro. Vivemos para nós próprios, sem nos preocuparmos com nossas tradições nem com a nossa posteridade.

 

A geração pós-moderna não quer viver os ideais revolucionários do passado e muito menos perturbar a paz do sistema. A esperança revolucionária e a contestação estudantil desaparecem, raras são as causas ainda capazes de empolgar a longo prazo as energias juvenis. É uma geração muito diferente, sem os conflitos existenciais das gerações passadas, mas superficial, hiperativa e pouco rebelde. Admiramos pessoas idosas animadas, entregando-se até suas últimas energias ao trabalho, à missão, ao serviço aos irmãos. São subjetividades fortes, corajosas, oblativas. Na pós-modernidade passam diante de nós adolescentes com rosto apagado, aborrecidos com o existir. Carregam dentro de si frustrações mal digeridas. Horas passadas diante da TV e olhos pregados na telinha da internet não lhes abrem a mente para a beleza, para horizontes amplos. Atam-se a si mesmos na morbidez afetiva e sensual, na busca desenfreada por sites provocativos. A afetividade fatiga-se, aborrece a si mesmo. Ao cansaço agrega-se com facilidade a depressão, que os contamina com a sensação de impotência, desânimo em face ao futuro. Refugiam-se no presente morno e cinzento. Se a década de 60 e 70 era marcada por uma subjetividade corajosa e ardente, hoje temos subjetividades cansadas e desanimadas.

 

O consumismo é outra característica do neonarcisismo. O jovem pós-moderno não quer ficar rico, mas deseja levar uma vida confortável. Só que este conforto é representado por bens de consumo sofisticados. O jovem de hoje é o que o capitalismo sempre sonhou. Pela primeira vez na história existe uma geração, em escala planetária, sob o bombardeio de uma onipresente indústria cultural e com extraordinário acesso à informática, que sente, quer, veste, ouve e vê as mesmas coisas. A globalização da juventude é extremamente interessante às agências de publicidade. Através da televisão e da internet o jovem tem a sensação de estar presente em todos os eventos, mas isso não significa necessariamente ser consciente, processar toda a informação até chegar a uma visão coerente e crítica do mundo. Circulam-se num mundo virtual, em que as realidades surgem e desaparecem a um simples toque da tecla. Um rapaz feio, desajeitado e tímido, diante de um computador - na virtualidade da relação - transforma-se no galã de cinema, transforma a própria identificação a seu gosto. E assim se joga no rinque das conquistas afetivas, até as mais realistas provocações sexuais. Tudo virtual. Nada verdadeiro.

 

No neonarcisismo moderno, o hedonismo e a permissividade estão entrelaçados pelo materialismo. Isto faz com que as aspirações mais profundas do homem estejam sendo gradualmente materiais e cheguem a uma decadência moral. No hedonismo advindo com o neonarcisismo, a lei máxima de comportamento é o prazer acima de tudo, custe o que custar. Seu código é a permissividade, a busca ávida do prazer, sem nenhum discernimento. A sensualização do corpo é altamente valorizada, assim como a satisfação dos prazeres (“tirania do corpo”). O corpo se converte em objeto de um trabalho de solicitação. Constituído em objeto sagrado, o corpo substitui a alma como objeto de salvação. O corpo e o sexo são consumidos enquanto desubstancializados, libertos de seu sentido profundo e abstraídos da relação interpessoal.

 

A volta do sagrado acontece também na vida do jovem pós-moderno. Antes de falar do retorno de Deus, parece necessário constatar um retorno das bruxas. Há um autêntico “boom” de esoterismo e das ciências ocultas (astrologia, alquimia, espiritismo, cartomantes, etc.). A proliferação de livrarias esotéricas é alarmante. Na pós-modernidade Deus não pode ser exigente. O deus do jovem pós-moderno é feito de acordo com seus desejos. O jovem pós-moderno prepara para si uma salada religiosa com gotas de várias seitas ou religiões. Espiritualidades sem força, nem vigor, repleta de sentimentos, emoções, agitos, invade o vazio interior das pessoas na inútil satisfação. Impossibilidade de suportar o silêncio de Deus em determinadas horas. Subjetividades afeitas a celebrações bonitas, com estéticas, tudo visível, sensível, palpável. Buscam uma religião confortável, alheia às exigências morais. Muitos se dizem católicos, mais não aceitam dogmas ou pontos centrais da fé. Vivem no famoso axioma: Jesus sim! Igreja não!